As minhas pernas ganharam rodas. Santiago.

Ainda tentava arranjar um espacinho para o rolo de papel higiénico. Ou tirava o casaco, ou tirava a toalha, ou tirava o impermeável e levava o papel…  Nos punhos da bicicleta!???

Os alforges quase não fechavam. Levava o indispensável, umas boas botas que fora aconselhada a levar “terás muita serra para desbravar” (nem eu sonhara quanta!)… Na bicicleta estava tudo a postos. As rodas cheias à espera de darem inicio à “caminhada”, os cantis cheios. Em Valença do Minho, finalmente após voltas e reviravoltas, montamos as bicicletas com os respectivos alforges… estavam tão pesadas que mal conseguia conduzir a direito! Após a primeira paragem, ainda em Valença, rapidamente chegámos à ponte Internacional. Encontrava-se em obras, só passava uma linha de carros de cada vez, ora num sentido, ora noutro… Cruzámo-nos com alguns turistas que visitavam Valença. Estava uma luz intensa, mas que se aproximava do final da tarde. As ruas de Tui faziam-se aos “eses” cheios de entusiasmo e energia, ora pelos portos, ora pelas fontes, até chegarmos a uma estrada com uma bifurcação: um marco indicava “o Caminho” para a esquerda. Entrámos por um bosque.

Dávamos inicio à verdadeira “caminhada”, parando em todos os recantos para fotografar. Pedalámos pelas florestas. Quanto falta? 10, 20 km? No meio do bosque viam-se rasgos de sol que entravam através das árvores, parecia “A Floresta” de Sofia de Melo Breyner. Começámos a ouvir ladrar bem ao longe. Muitos cães. Aproximavam-se. E agora?… Que fazemos? Como subimos a estas árvores gigantes? Eles começaram a aparecer, muitos, mas completamente indiferentes à nossa passagem, andavam à procura de outra coisa… Uf! Chegamos às Gandaras, zona industrial, das piores para os peregrinos, uma recta com fábricas à esquerda e à direita, desinteressantes. Afinal de bicicleta não era assim tão mau! Era uma recta… Cerca de 4km. Havia até uma fábrica de bolachas, com uma “vending machine”, a única quebra da monotonia!

Dei boleia a uma libélula, estava meia morta no chão, era de tons de verde, azul e prata. Peguei nela e coloquei-a no meu volante protegida pela mala da máquina fotográfica… Ela ali ficou agarrada com as suas delicadas patas. Gostou da boleia. Pensei que poderia ficar minha companheira de viagem, mas receiei não conseguir protegê-la até ao final… Faltavam muitos quilómetros. Despedi-me dela, no campo, assim que terminou o polo industrial e encontrei uma zona verde. Ela agradeceu a boleia. Iria morrer num lugar mais digno.

E chegou a primeira enorme descida, asfaltada, com caminho aberto e com boa visibilidade! Uau… Passei os 40km/h olhando em frente com o vento a bater e a velocidade do nosso corpo rasgando o ar. Melhor que uma “montanha Russa”. Aqui tudo depende de nós! Um enorme sentido de liberdade! Voar!

Chegámos ao albergue do Porriño, já de noite. Muitos caminhantes sentados à porta, mesmo frente ao rio. O senhor disse-nos ter o albergue cheio, mas arranjava-nos uns colchões para dormirmos no corredor. Não imaginava como seria essa noite… Afinal arranjou uma cama num dormitório. Fui fazê-la, estava o quarto cheio de apertados beliches onde os caminhantes dormiam, eram nove horas da noite. Deitei-me, completamente escuro, entre um rapaz que dormia de calções e uma personagem que pela sombra não consegui identificar ser homem ou mulher. Fazia muito barulho, tinha uma máquina com um tubo para respirar. Como a vida no dia-a-dia poderia depender duma máquina, e estava ali num albergue de peregrinos… Como tudo é relativo… As janelas estavam abertas de par em par, viam-se luzes da cidade à volta e ouvia-se o burburinho da noite. Ainda bem que tinha ficado no beliche de cima!… Havia uns vinte pares de beliches. De repente, a meio da noite, um grande estrondo e a máquina do vizinho tinha-se espalhado pelo chão. Vi agora que era um homem. As luzes acederam-se em simultaneo, as pessoas estremunhadas esfregavam os olhos no cimo dos beliches… Finalmente a calma voltou e o dormitório regressou ao silêncio povoado com o roncar dos peregrinos.

Saimos ainda de noite. Tomámos o pequeno almoço num café aberto junto à linha do comboio. Vimos passar um casal de bicicleta, ela pequena loura, sem carga, ele altissimo de corpo moreno e com uma mochila do tamanho do seu corpo… Mais tarde, viríamos a estar com eles, na grande praça de Santiago.

Reiniciámos mais uma “caminhada”, uns rapazes “locais” passaram por nós dizendo termos demasiado peso. Estarão habituados a ver os ciclistas leves contrastando com a nossa inexperiência…

A manhã despontava, um grupo de homens conversava num círculo, estávamos em Mós. A arquitectura era bonita e avistava-se uma grande subida. Carregámos as bicicletas rampa acima. Desta vez os caminhantes ultrapassavam-nos, dando um empurrãozinho na minha bicicleta que teimava em não querer subir!

Do resto do percurso tenho poucas memórias. Subidas. Subidas e mais subidas. E ainda mais subidas! Sempre com a bicicleta ao lado, empurrando-a. 30 kg. Raras pessoas se cruzavam connosco. De repente vi-me enfiada numa valeta repleta de plantas e com a bicicleta caída em cima de mim! Nessa altura passaram 2 ciclistas portugueses bastante rápidos. Perguntaram se era necessária ajuda. Não, está tudo bem! Só preciso que me tirem do buraco! Estão à espera de quê?!

E acabámos pouco depois num restaurante de estrada com um grupo de 16 ciclistas “profissionais” de Felgueiras. Eram experientes e habituados a fazer o Caminho, de bicicleta, queixaram-se dos seus 3 kg de peso, tiveram pena de nós (porquê!!??) e deram-nos bebidas energéticas e reposições proteícas. Avisaram-nos do percurso difícil que ai vinha. De certeza, pior do que este que acabámos? Perguntei, esperançada que alguém o contrariasse… Nem imaginaria o quão mau seria…

Lá nos despedimos, eles seguiram, desejam-nos sorte e a expressão mais ouvida “bom Caminho”! As subidas eram íngremes e o pior era o piso. De pedra, pedra imensa, por onde a bicicleta só passava arrastada, sempre a travar… O pneu da frente, ao ser empurrado resvalava nas pedrinhas e tombava para a berma não queria subir, o peso estava muito desequilibrado! Vá lá! Só mais um passo… Parecia-me que levava a bicicleta ao colo! Doíam-me os braços de empurrar. Comecei a ficar com feridas e nódoas negras, que me acompanharam até mais de um mês depois. O sol estava forte, o muito calor e o cansaço já tinham chegado. Em força! Não, não pode ser tão mau! Uma libelinha bailou à minha frente, fiquei a olhar para ela. Era um sinal. Indicava-me o caminho. Voou até mim, deu meia volta e prosseguiu na direcção certa… Tinha de prosseguir. Pedalámos pouco e empurrámos muito. Chegámos a Pontevedra. O albergue de peregrinos ficava logo à entrada, estava cheio. Pedi se podíamos ficar num colchão na entrada ou em algum canto… Não, estamos cheios e como há festas terão de procurar um hotel com vagas! Por mim dormia ali, ao relento, no banco da entrada. Lá conseguimos um hotel com lugar para as bicicletas. Os ciclistas nunca têm prioridade nos albergues, pelo que é difícil arranjar lugar. Têm de seguir para outro albergue, pelo menos a 20 ou 30 km de distância. Deviam lembrar-se que nem todos são ciclistas profissionais!… Os cavaleiros também. Surgem depois dos caminhantes e depois dos ciclistas.

Agora entendia porquê que os peregrinos estavam já todos a dormir às 8 ou 9 da noite… Já estava com os mesmos hábitos. Deitar ainda de dia e levantar de noite cerrada. Saíamos ainda de noite. É fantástico viver todos os dias o nascer do dia, na bicicleta. Uma frescura que nos enche de boa energia. “Bom caminho” dizia quem por nós passava, “Obrigada! Um bom dia!”.

O Caminho era hoje bem mais bonito, mais pacífico e plano. No meio duma floresta a corrente da minha biciclete partiu-se! Raios! Tentei andar com o balanço, mas sem a ajuda dos pedais não havia balanço que a fizesse andar. Caminhamos até à aldeia mais próxima. Conhecemos o João, na sua 18º caminhada. Tentou ajudar-nos. Depois de muito subir acabámos por conseguir encontrar uma oficina de motas. As ferramentas são diferentes, não tinham para bicicletes, mas finalmente conseguimos ligar a corrente! Ainda pensei trocar a biciclete por uma das muitas motas, mas não me imaginava a entrar na Praça de Santiago de Compostela de mota… Não, não tinha graça! Estava um calor abrasador. As dores manifestavam-se por todo o corpo. Mas finalmente reencontrámos o Caminho e já podia pedalar! Almoçámos em Caldas dos Reis. Fomos interceptados por um grupo simpático de espanholas, que nos disseram onde era o albergue. Mas nós queríamos comer. Ainda era cedo para dormir. Almoçamos numa esplanada, cheia de “caminhantes”. O ambiente era animado, embora de cada um que se levantava saía um “ai”. Vou beber cerveja. Pode ser que ajude com as subidas! As bicicletas continuavam pesadas, o suficiente para deitar ao chão um biombo e o empregado do bar, quando tentou pôr a bicicleta “um bocadinho mais a jeito”… Tudo o que elas carregavam seria necessário até ao fim. “O primeiro dia é uma maravilha, estás fresco e cheio de energia… o segundo duro, duro, duríssimo! O terceiro dia é fatal! Sim! É mesmo! Mesmo fodido! Fodido! F-o-d-i-d-o”, diziam-me com o sotaque castelhano… “então e o quarto?” perguntei com esperanças que algo mágico acontecesse… “Ah! Ao quarto dia já estás mentalizada!” A magia morreu, rimos.

A tarde não foi tão dura, os caminhos pelo meio de campos agrícolas, entre a estrada principal e os caminhos pelas aldeias no meio dos campos, contrastavam com o dia anterior. A certa altura senti-me tão “aquecida” que não sentia nenhuma dor. Não me dói em nenhum sítio. Que maravilha!

O pior é quando se pára e se continua de novo… O melhor é não parar! Uma sensação nunca antes sentida… a sensação de não sentir nada… a ausência do corpo (e do espírito!).

Mas parámos num regato, com pedras. Que bom! Estiquei-me nas pedras. Que bom sentir os ossos gelados! Estava cheio de alfaiates e libelinhas, vieram ver-nos e perguntar onde íamos, no entanto, temo que já soubessem…

Os cães dentro das suas casas, observavam-nos, como que habituados a ver nos passar… como as velhinhas à janela a ver a procissão. Ou vinham cumprimentar-nos e seguiam os seus caminhos. Os marcos indicavam os quilómetros que faltavam e a concha indicava o caminho. As pedrinhas faziam um pequeno montinho no topo dos marcos. Pedras e papelinhos enrolados em elásticos rogavam desejos e sonhos por cumprir. Alguns deixavam as botas, os sapatos… e sabe-se lá que mais… A alma!

Estava calor, avionetes, “canadairs” e helicópteros passavam-nos por cima. Bem pertinho, um grande incêndio, por trás das árvores por onde passávamos. Será que nos resgatam se o fogo estiver na nossa direcção? Quando finalmente conseguimos chegar à estrada principal, reinava a calma. Não, o fogo ainda é longe. Podemos continuar!

Vamos procurar o albergue. As indicaçãoes são confusas. Andamos às voltas, mas sem dificuldade, ainda era cedo e o corpo já não sentia… Um campo de milho ficava perto, a última paragem antes do albergue. Tinha o dobro da minha altura! Lindo! Enfiei me pelo meio do milho e senti-me como um coelho no meio das plantações, ou como um insecto no meio das flores!

Tem uma escultura  dum caminhante a descansar os pés. Valga. Está vazio, fica no meio de uma etapa, e não no final. Deixam-nos ficar mesmo ainda faltando muito para as oito horas, estavam muitos dormitórios fechados. O único quarto está com os caminhantes a descansar. Desta vez há muitas bicicletes, um mostruário, uma tão completa que incluí espelhos retrovisores. O Holandês já tinha feito 5000 km e iria descer atravessar Portugal e seguir até Marrocos, dois meses de bicicleta. Sózinho. Até se cansar e apanhar o avião de regresso. Admirei a sua coragem. Não fui capaz de lhe dizer que faríamos pouco mais de 100 km!

Saímos ainda de noite. Desta vez o caminho era por pequenos bosques que pareciam encantados, com clareiras e lugares mágicos. Caminhos fáceis e planos. Parece uma recompensa depois de tanta subida e tanto caminho duro. Mais um dia de caminhos planos entre casas e caminhos agrícolas. Agora a minha bicicleta continuava com o problema da corrente, quando punha uma mudança mais leve ela saltava, pelo que teria de manter sempre a mesma, que seria até ao final da viagem. Ouvi um carro que vinha na nossa direcção muito depressa. Quem é este!? Como pode andar aqui a esta velocidade!? Ah!!! Era o padre!!! Fomo-nos cruzando com grupos de caminhantes que seguiam ora sozinhos, ora em grupos. Passávamos por eles, parávamos e eles passavam-nos de novo. Agora ouviamo-los praguejar “Padre maluco … Raios de padre!…”, o carro do padre travava-nos o caminho para entrar no portão da sua casa… Alguns caminhantes já eram nossos conhecidos de noites ou refeições anteriores, sempre motivo de festa, cada vez que nos cruzávamos. Padron. Uma terra maior onde fizémos também uma pausa maior. Continuamos, o corpo estava dorido. Já tinha passado os 100 km. Fotografei o conta quilómetros. Já faltava pouco! Passávamos pontes e zonas de obras um pouco confusas. Encarrilamos na 505, estrada cheia de movimento, que quando um camião nos passava parecia fazer-nos voar. Passou por nós Stefan, um francês que parecia ter pilhas “duracell”… Andava como um boneco! Tão leve. Não, afinal leva uma enorme mochila atrás! Como consegues? A força está na nossa mente. Eu vou assim, sei lá, vou a cantar por dentro e é assim, não custa nada!

Maldita estrada. Enganámo-nos. O caminho já não era por aqui. E agora? Passar para o outro lado seria impossível. Como nos gritou o Stefan não tinha visibilidade para ir para o outro lado. Pensámos que ele queria vir para o nosso lado. Afinal, nós é que teriamos de passar para o dele. Não sei onde fui buscar energia, mas era agora ou nunca: atravessar a correr ou morrer debaixo dos carros que passavam a 100 à hora… quando chegámos ao albergue o Stefan já vinha de banho tomado com beliche marcado. Almoçámos todos numa espalnada junto a uma estrada secundária, o albergue estava vazio mas muitas pessoas chegavam e tememos não ter lugar, os ciclistas ficam para o fim. O pai americano-cubano com as duas filhas contavam ter feito o caminho tão rápido como o Stefan, pelos vistos já conhecido pelas suas pilhas energéticas. Ele ri-se, diz que é assim. Tinham vindo do Porto. O poder da nossa cabeça. Nós é que controlamos. E o Caminho. Eramos os únicos iniciados, todos já tinham feito várias vezes os caminhos, a pé. O Caminho Francês dizem ter muita gente, sempre. Não como o Português. Mas havia agora um novo pela costa, e Finisterra. Um lugar mágico a não perder. Caminhando. Bicicletando. Cavalgando…

Não podiamos ficar no albergue que estava a ficar cheio. Avançámos. Estava um calor tremendo. Nas fontes enfiavamos a cabeça debaixo das torneiras, o capacete por cima. Senão os miolos cozem. Como dizia o Gus. Pensei tanto nele em toda esta viagem. O meu “avô” inglês que andava de biciclete pelo Mundo, com os seus 72 anos… Dizia que o capacete cozia os miolos. Como o entendi. Mas ciclista que se preze não anda sem capacete.

Os bosques eram mais íngremes, os caminhos fáceis e bonitos tinham terminado. Agora avançávamos de sombra em sombra. Eram raras e estava um calor abrasador. E eu a pensar nos casacos e nas calças polares para as noites frias, nos ténis sobresselentes, no impermeável que levava nos alforges! Já tinha deixado os óculos escuros, mais uma coisa pendurada na cara… Mais as luvas… Mais… Como as coisas iam deixando de ter valor… poderia prosseguir apenas com a máquina fotográfica, deixando tudo o resto para trás. Tudo podia ficar para trás. Mesmo os pensamentos que mais nos carregavam! É o sentido do desprendimento completo… Também um sentimento novo para mim. Desprendimento material e psicológico! Não havia horas para comer, nem previsão de lugares para o fazer, nem noites marcadas, nem hora do banho…

O alento esmorecia, o calor não deixava pensar em condições… Aproximava-se o final da tarde. E onde ficar? Os albergues tinham acabado. O caminho era feio. Mesmo. Já não interessava fotografar. Não podíamos dormir ao relento. Estávamos nos arredores de Santiago. Nos arredores de uma grande cidade. Um grupo de ciclistas português vai apanhar-nos. “Força, força que estão quase!!!”, gritaram-nos ao passarem a toda a velocidade. Foi o necessário para montarmos de novo nas bicicletes e pedalar com toda a energia. Parei a falar com duas senhoras, admiradas com o que já tinhamos percorrido… Normalmente não falam com os ciclistas, pois estes andam depressa demais e não param para conversar! Via-se agora, pela primeira vez, a catedral ao longe, faltavam ainda uns 7kms. Lembrei-me do João que nos falou da subida do Hospício. Como é que ele sabia que havia um hospício? Agora era demasiado óbvio. Ele falou-nos duma bifurcação para seguirmos o caminho da esquerda (estão os dois marcados!) E agora? Será que era mesmo pela esquerda que ele nos disse? Saí uma velhinha louca duma casa, aos gritos, a dizer-nos que as cinzas de Santiago não estavam ali… O suficiente para rapidamente escolhermos o caminho! O da esquerda pois! Atravessámos Santiago, de avenida em avenida de jardim em jardim, onde é o Caminho? Por aqui? Parámos numa paragem de autocarro no meio da cidade a descansar. Está quase! Quase! Andamos ziguezagueando entre a multidão nas ruelas à volta da catedral. Quando entrei na praça, foi como que cortar a meta! Acabámos deitados no chão da praça de Santiago de Compostela, eram umas oito e meia da noite. Todos festejavam, a praça estava cheia de energia positiva e havia um misto de sorrisos e lágrimas nos rostos, as mochilas, os bastões e as bicicletes decoravam o chão. Consegui! Chegámos!!! Foi o ponto mais emocionante da viagem. Uma enorme vitória. Senti-me cheia. Grande. Enorme. Uma sensação magnífica de plenitude. Difícil descrever. Majestoso!

Olhei para o céu e ela estava lá, a subir, cheia. Linda. A tomar conta de mim. Arrepiei-me. Respirei fundo sentindo toda a tranquilidade. Encerrei um livro.

Os dias que se seguiram foram pacificos. Senti saudades da bicicleta que ficou guardada na garagem do hotel. Já era difícil separar-me dela. Ela era parte de mim. Como se as minhas pernas tivessem ganho umas rodas. A missa era ao meio-dia. A nossa amiga francesa disse-nos para irmos cedo, para arranjarmos lugar sentado. Às onze já lá estavamos. Sentados na lateral da Catedral de Santiago. Linda. A missa finalmente começou. Senti-me arrepiar. Era a missa do Peregrino. O padre falou do Caminho. Da vida. Foi interessante e até comovente. O fogareu encheu-se de fumo, os 8 homens davam-lhe balanço e um homem cantava ao som do orgão que agora tinha começado. O fogareu passava-nos por cima. Era uma benção. As pessoas olhavam-se emocionadas, com vontade de se abraçarem umas às outras. O fogareu passava-nos por cima da cabeça, abençoando os peregrinos. As pessoas levantaram-se e uma enorme salva de palmas ecoou pela catedral. As coisas iriam mudar daquele momento em diante. A minha vida seria outra, eu seria outra.

Já era. Abençoada e com toda a energia para prosseguir o meu caminho.

 

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3 thoughts on “As minhas pernas ganharam rodas. Santiago.

  1. Só de ler a descrição desta aventura ficamos cheias de dores nem se sabe onde mas com uma vontade imensa de estar lá ! São emoções umas a trás de outras…
    Um grande abraço! Lígia*

  2. Gostei desta odisseia Alexandra. A sensação é essa mesmo, uma mistura de cansaço, felicidade e bem estar. Senti saudades.
    Espero que repitam. Um abraço

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